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Tenho uma fome imensa por novas palavras, vindas de qualquer idioma.
Como tento sempre entender o motivo das minhas vontades, cheguei o mais perto que consegui do motivo dessa fome: a vontade de adquirir novos conceitos, visões de mundo.
Acho que todos têm essa idéia de forma inconsciente, mas adoro tornar as idéias mais concretas pra aumentar minha consciência sobre mim mesma e sobre o que quero e imagino que vocês também possam lucrar com essa brincadeira de coleção de idéias a respeito da linguagem.
Dos livros que conheço do avesso, separei alguns trechos que demonstram essas idéias e que podem talvez, aumentar a consciência de vocês sobre a importância das palavras, e quem sabe tornar nossos pensamentos mais lógicos e mais próximos da verdade.
Pensamos em Português
“a linguagem contém uma visão de mundo que determina nossa maneira de perceber e conceber a realidade” FIORIN, J. L. Linguagem e Ideologia.
A língua materna determina e diferencia a maneira pela qual o indivíduo recebe, sente, processa, elabora e compreende sons emanados do ambiente, dando-lhes ou não um “colorido” emocional no sentido da linguagem… Além disso, estaria relacionada a formação de um tipo especifico de cultura e da mentalidade particular de cada grupo étnico. Leia mais.
Quanto menos palavras, menor a consciência sobre quem somos:
“Vidas Secas” – Graciliano Ramos:
“Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não haviam meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.”
“Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia. (…) Vivia tão agarrado aos bichos. Nunca vira escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas em seus lugares. (…) Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la.”

Filme - Vidas Secas
“A Hora da Estrela” – Clarice Lispector
Madame Carlota pergunta se ela tem medo das palavras e Macabéa responde: “Tenho sim, senhora.”
Nunca esqueceria que no primeiro encontro ele a chamara de “senhorinha”, ele fizera dela um alguém.
Ela era de leve como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. (…) Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como o cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era.
Holanda (1992, 68) sobre “O Estrangeiro” de Alberto Camus:
“tendo perdido a adesão ao que as palavras vinculam, perdeu aí, a significação do mundo até então seu. Seu silêncio assinala desapropriação do mundo, desinteresse.”
Leia mais:
Três Marginalizados Entre a Palavra e o Silêncio: Fabiano, Macabéa e Biela
Como boa Paulista, não tinha nem idéia do sucesso dos Biscoitos Globo no Rio de Janeiro.
E o pior que é muito sucesso mesmo.
Pra você ter uma idéia, você pode comprar bolsas, cangas e há até quem use brincos de biscoito Globo por aí…
Eles são feitos da mesma forma desde 1.963 e não envolvem muitas máquinas no processo, muito menos exploração de funcionários ou conceitos modernos e chatérrimos de administração de empresas.
A embalagem ilustra uma imagem feita por uma padeiro, e possui cores que ajudam camelôs analfabetos a identificarem os sabores.
O segredo do sucesso ninguém explica.
Leia mais na Revista Piauí
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. …
Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. …
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo.
Clarice Lispector

Clarice Lispector
Naquele dia, em seu apartamento novo, que de tão novo nada tinha ainda de seu, Clarice reconhecia que o que Álvaro Lins criticara era a característica maior de sua literatura. O seu defeito era na verdade a raiz de sua natureza de escritora. E seria a fonte maior de toda a sua obra. “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”, escreveu depois à irmã, Tania Kaufmann, entre caixas abertas, segredos e tesouros trazidos à tona cuidadosamente para não se partirem, “nunca se sabe qual deles que sustenta o nosso edifício inteiro”.
Leia o artigo inteirinho no http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=285
A Arte de Perder
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
Tradução de Paulo Henriques Britto
É considerada um das mais importantes poetas do século XX a escrever na língua inglesa.
Lésbica, apaixonada pelo Brasil foi a primeira mulher a receber o International Neustadt Prize for Literature (prêmio internacional Neustadt de Literatura) e continua sendo o único americano a recebê-lo.
Não admitia ter pena de si mesma, mas seus poemas mal escondem todas as dificuldades como mulher, como lésbica, como órfã, como viajante sem raízes, ou asmática frequentemente hospitalizada, mulher que sofria de depressão e por vezes alcoolismo.
“I’m not interested in big-scale work as such,” disse uma vez a Lowell. “Something needn’t be large to be good.” O que simplesmente quer dizer que não estava intressada por trabalho em larga escala, por não acreditar que algo precisasse ser grande para ser bom…

